segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

CRÔNICA ----- País de um real

Uma das mais fortes características do brasileiro é a de acreditar em tudo e fazer dessa crença, inclusive quando nem está tão crente assim, a maior das esperanças. Pode se dizer - e sem nenhum exagero - que nós brasileiros acreditamos até em Papai Noel mesmo sabendo que ele não existe.
Descobrimos até uma forma de acreditar que um real é dinheiro e vale alguma coisa. Quem der uma volta pelas ruas de todos os bairros repletas de camelôs pode comprar de tudo por um real. É verdade que nada do que se compra por esse ilusório um real tem qualidade que valha um mísero centavo, mas nós, que cremos em tudo, fazemos a festa acreditando também que nos camelôs de um real (e só neles) temos poder de compra e não somos tão pobres assim.
Em todas as banquinhas da chamada economia informal tem quase tem quase tudo o que quer ter, de roupas (trapos) a pilhas que funcionam poucas horas antes de derreter completamente, isqueiros que geralmente explodem com o calor, enormes lápis de silicone quer nem sabemos se escrevem mesmo, pares de meia que fazem nossos pés suar de tão apertados que ficam.
Fingimos que compramos o que é bom e que, como sempre, estamos levando vantagem: vamos de barraquinha em barraquinha acreditando que temos um bom poder aquisitivo e que, afinal, podemos comprar muitas coisas. Desde que cada uma delas custe não mais do que um minguado real que fica valendo quase uma fortuna ao alimentar nossos mais pobres sonhos de consumo.
Um estrangeiro que desembarcar por aqui terá aos primeiros momentos a sensação de estar em um país no qual o povo feliz pode comprar de tudo nos vários e gentis “comerciantes” que facilitam nossas vidas em suas também falsas banquetas espalhadas por toda a cidade e perseguidas mais do que o são, os verdadeiros bandidos.
Na base do um real o brasileiro se ilude mais uma vez e cria a nova economia do consumo ruim, mas barato. Assim esse será sempre o país do irreal um real. Até descobrir que está vivendo um tempo irreal. Por apenas um real. (Eli Halfoun)

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