quinta-feira, 31 de julho de 2014

Devolvam nossas panelas velhas, nosso prazer de comer

         Esse novo e cada vez mais complicado tempo tem facilitado, em termos tecnológicos nossas vidas, mas também tem impedido que se viva tranquilamente ou, como diz o samba, que deixemos a vida nos levar. Muita coisa mudou ultimamente e se ficou mais fácil bater um bolo na moderna batedeira elétrica, o bolo ficou menos gostoso na medida em, que passou a ser feito mecanicamente e não com o amor que nossas mães e avós abençoavam com suas santas mãos os ovos, a farinha, o açucar, o bolo todo. Um bolo que a gente podia comer com o mesmo carinho com que era feito e sem a preocupação com a quantidade de calorias e de gordura. Era só o prazer de comer. Já não se come com o mesmo prazer de antigamente e se é verdade que esses novos tempos nos obrigam a tomar mais cuidado com os alimentos é verdade também que a vida ficou menos prazerosa porque está nos enchendo - e a cada dia mais - de cuidados e de culpas e sufocando o delicioso prazer do paladar

                    Bons e saudosos tempos em que se podia ir ao boteco da esquina comer um daqueles gordurosos tira-gostos que davam prazer e alegria a alma e que mesmo sem nenhum requinte enchiam as vitrines de sabor, de gordura saturada e de sonhos. Saturados hoje estamos nós que não devemos (poder a gente ainda pode) comer tudo o que queremos porque se o fizermos a dor da culpa será inevitável porque, como alertam os médicos, estaremos prejudicando a saúde do futuro. Mas, afinal, o que adianta a boa saúde do futuro se não há nenhum prazer no presente? O prazer de comer, que é um de nossos melhores sentidos, está escapando dos nossos pratos hoje repletos de folhas e carnes sem tempero, sem gordura, sem sabor. Sem qualquer prazer.
                A impressão que se tem é a de que o homem perdeu aquele entusiasmo que o fazia ir à mesa com apetite e sem medo. Não se pode mais comer uma feijoada, uma rabada, uma picanha cheia de gordurinha, uma costela assada ou cozida, um lombinho de porco sem ficar com medo ou com culpa. As velhas paneladas, que nos faziam sonhar a semana inteira com um farto e generoso almoço de sábado, estão aposentadas. Só para que supostamente possamos nos aposentar com menos problemas de coração, de rins e de tantos outros orgãos que, tenho certeza, sofrem muito mais com a falta de alegria que já foi comer com prazer e em paz.
              Aos poucos vamos perdendo em nome de uma suposta melhor qualidade de vida, os velhos hábitos e os fantásticos prazeres que as, digamos, grosseiras cozinhas nos proporcionavam. E ainda por cima nos enchem mais de culpas e de cuidados com as quase obrigatórias lanchonetes (não demora muito essa obrigatoriedade invade os botecos e os restaurantes populares) de exibirem o cardápio informando as calorias dos alimentos, como se realmente isso interessasse a procura somente o prazer de comer. Sem culpa e sem medo.
             Tudo bem que às vezes é preciso evitar os exageros (em tudo na vida) e ter cuidado, mas o melhor cuidado é o de não se privar daquilo que se gosta. Estar satisfeito e feliz ainda é o melhor receita de vida. Aquela vovó que fazia o bolo com as mãos e com carinho certamente era muito mais saudável entre suas velhas panelas, do que está hoje entre balanças culinárias, medidores elétricos, tabelas de calorias e gorduras que estão fazendo as surradas receitas da vovó ficarem esquecidas em um velho baú junto com a nossa alegre vontade de comer. Nossas vovós cozinhavam de tudo, comiam de tudo e estão aí vivinhas, mas obrigadas a fazer das velhas e saborosas receitas apenas uma saudade.
* E saudade é muito mais prejudicial para a saúde do que qualquer caloria ou gordura.   

                                                           

Nenhum comentário:

Postar um comentário