quinta-feira, 20 de maio de 2010

CRÔNICA ------ Mendigos da cultura

Até que se tenta fugir delas, mas as comparações são inevitáveis na vida, sejam de amor, de amizade, de qualidade de produtos, de tudo. Sem comparações (mesmo que às vezes sejam exageradas) não haveria diferença entre nada. Aquele amigo no qual você mais confiava e que se dizia teu irmão acabou te traindo e assim permitiu que você pudesse fazer inevitáveis comparações com os novos amigos que está conquistando e que se realmente verdadeiros, nunca faltarão
Há comparações que por mais absurdas que possam parecer nos deixam humilhados e perdidos como se fossemos ninguém.. Cada vez que me deparo com uma lamentável situação dessas lembro de um bem feito anúncio em que o cliente de um banco ia ficando pequenininho diante da humilhação que passava para pedir um empréstimo. Na fila do desemprego a humilhação ( o desempregado já se sente humilhado pela própria situação , é como se o tempo todo levasse um tapa na cara ) começa quando você é obrigado a tomar um “chá de cadeira” durante horas, sem poder ter qualquer tipo de reação, embora esteja e fique com mais raiva, porque aquela pode ser a única oportunidade de voltar a exercer seu trabalho, sua profissão.. Os ponteiros do relógio de quem está ali funcionam como verdadeiros aparelhos de tortura – uma cruel tortura contra a paciência.
Não faz muito tempo vi dois jovens atores correndo humildemente atrás de patrocínio para um espetáculo que, com esforço e coragem, pretendiam montar. Os atores, inclusive os mais famosos, estão se transformando em verdadeiros pedintes, mendigos da cultura, sempre que precisam de apoio financeiro para montar um espetáculo. E não é que eles estejam defendendo o próprio emprego: estão tentando levar cultura ao povo e permitindo que outros atores tenham a possibilidade de trabalhar. Tão cedo não conseguiremos acabar com as filas e as humilhações de milhares de desempregados, mas é hora de pensar em uma solução para não mais permitir que nossos atores tenham que passar por diversas humilhações em busca de um patrocínio - patrocínio que, aliás, traz muitos benefícios aos patrocinadores, inclusive descontos no Imposto de Renda. Quem quer dar cultura ao povo não pode virar um mendigo da cultura, assim como os desempregados não podem virar pedintes humilhados no sagrado direito que tem de trabalhar.
* Fazer cultura e pedir emprego, mesmo que seja o mais simples, não pode continuar sendo ser uma humilhação

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